Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

A Fada-do-Lar e a Princesa...

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Ainda ecoam nos meus ouvidos as palavras da rainha-mãe quando me chamava a atenção pelo facto de não ser uma princesa dedicada aos «lazeres» e «afazeres» da casa: «-Princesa Maria!!!! Quando tiveres a tua casa não sei como vais fazer!!!» ou então «-Pobre do Príncipe que casar contigo vai ter que comer ovos estrelados ( a única coisa que eu sabia fazer na minha doce adolescência) ou então vai comer a casa da mãe dele (achava piada à forma subtil como ela me dizia que a casa dela não seria um self-service)!!!» e blá, blá…
Não! É um facto, nunca fui uma entusiasta pela vassoura, pano do pó, esfregona, cozinha…and so on…. Quando a rainha-mãe me chateava muito, respondia invariavelmente: «- Ando a estudar para um dia puder pagar esse serviço!!!». Isso deixava a rainha fula!! E tinha direito a mais um sermão que pelo menos devia apreender, que pensava que tinha nascido em berço de ouro (nasci num de platina está claro) e blá blá…Ok assumo era uma PREGUIÇOSA!!!!
Quando me tornei numa Princesa crescida (há alguns anos atrás), independente e com a minha casa, resolvi que os serviços de uma «fada-do-lar» seriam imprescindíveis!!!!
Fiz alguns contactos e deram-me um nome de uma senhora que morava perto da minha casa. Tinha boas referências, uma senhora de sessenta e poucos anos, mas muito activa e simpática. Contratei-a!!!!
Durante uns tempos tudo corria bem. Aliás muito bem! Confesso, que nessa altura o meu maior pavor seria ela perguntar-me como se tirava uma nódoa da roupa ou então que produto deveria utilizar para o chão (cheguei-me a arrepender de não ter prestado alguma atenção ás palavras da rainha-mãe).
Mas isso nunca aconteceu. A senhora «encantou-se» pela Princesa e tentava fazer tudo para me agradar.
Quase que se comportava como uma mãe «babada». Bom, isso percebi quando reparei que a senhora do café onde eu ia me elogiava a blusa, que sabia que era nova (a D. Olívia tinha por acaso comentado com ela), lindíssima e muito chic. Ou quando me perguntava se estava melhor da dor de dentes, a D. Olívia tinha lhe dito que eu «pobrezinha» tinha estado com umas dores horríveis!!!
Se por um lado aquela situação não me agradava e sentia-me incomodada, por outro a minha fada-do-lar era tão simpática, que achei que não fazia por mal e relevei o assunto.
Bom, é claro que me aborreci no dia que encontrei a minha vizinha do 7º andar (que por acaso mal conhecia, assim como aos restantes vizinhos) e ela deu-me os parabéns pela decoração do meu quarto, que era fabuloso!!!!! A D. Olívia tinha-lhe falado no quarto e nesse dia tinha-a chamado para ver!!!
Mas a nossa «guerra-fria» nessa altura já tinha começado.
A D. Olívia tinha um hábito, que a inicio minimizei, mas que com o passar do tempo me dava cabo dos nervos e por outro lado sempre que me queixava, provocava verdadeiras gargalhadas aos meus amigos.
Trocava-me as coisas do lugar!!!! A jarra da sala ia para o quarto. O quadro da parede da frente era trocado com o da parede de trás, o tapete da sala com o tapete do quarto e o do quarto com o da casa-de-banho!!!!!!!
Todos os dias eu fazia questão de repor tudo no lugar!!! E todos os dias as coisas mudavam de lugar!!!
Lembro-me de «choramingar» com a minha mãe, que parecia que a casa já não era minha!!! Mas é claro que a rainha-mãe dava-me mais uns sermões dos benefícios de ter sido uma princesinha atenta, aquando adolescente e que agora não estaria tão dependente de uma Fada-do-Lar. O problema é que arranjar uma empregada de confiança não era fácil e eu não me apetecia prescindir desses serviços nem por um diazinho!!!
Assim, durante algum tempo fui aguentando tudo aquilo estoicamente. Dizia uns palavrões todos os dias, que me obrigava a «descerrar» os dentes da raiva que sentia sempre que tinha que repor as coisas no lugar.
A questão que podem colocar é: Porque razão não era frontal e não dizia que não gostava??!!!! Pois…por incrível que pareça sempre que eu era frontal e lhe dizia que não gostava de alguma coisa, a senhora amuava comigo. E no outro dia era certo que até as toalhas da casa-de-banho que eu escolhia para combinar com os tons da mesma…seriam trocadas, por outras que nada tinha a ver.
Mas os ventos de «mudança» aproximavam-se.
Aproximadamente nesta altura tinha feito uma descoberta. Os «genes» funcionavam. Ou seja, apesar de a minha experiência com a cozinha ser pouca e não ter uma ligação «íntima» com a mesma, quando me predispunha a isso era uma «excelente» cozinheira (os genes da rainha-mãe).
Um dia no trabalho desafiaram-me para fazer um bolo. Diziam os meus colegas e amigos, que o facto de dizer que as minhas coisas eram deliciosas não chegava, tinha que o provar … E eu aceitei. Um dos meus amigos adorava «torta de cenoura» que por acaso era uma das minhas especialidades e comprometi-me que faria uma.
Assim nessa noite fiz a famosa «torta de cenoura»!!!! Saiu uma maravilha, mas já era tarde e não me apeteceu cortá-la. Resolvi que a deixaria no frigorífico e a levaria no dia seguinte fresquinha.
No dia seguinte quando regressei a casa, depois de tomar o meu duche e largar as coisas, lembrei-me da «MINHA» torta.
Não consigo descrever o que senti, quando abri a porta do frigorífico. A minha fabulosa, esplendorosa e fantástica torta…estava reduzida a um terço do tamanho.
Descobri que a D. Olívia para além de se achar uma excelente decoradora, sofria do pecado da GULA!!!!!
Estava tão danada que esperei pela D. Olívia no outro dia de manhã!!!
Quando ela chegou fui buscar a torta e perguntei-lhe (com a voz mais calma que consegui arranjar):

-D. Olívia por acaso foi a senhora que comeu umas fatias desta torta???

Ao que ela respondeu:

- Fui sim Princesinha (tinha aquela irritante mania dos inhas).

Tentando manter a calma, respirando devagar, pois na realidade os instintos mais básicos estavam-me a passar pela cabeça, como por exemplo o «estrangulamento» disse :

- E a D. Olívia acha que isso está correcto??? Esta torta era para eu levar para uma festa!!! A senhora ontem comeu uma parte substancial da mesma!!!

Resposta da minha «Fada-do-Lar»:

- Olhe, Princesinha, acho que é de muito mau gosto a sua chamada de atenção, sou mais que uma mãe para si!!!

e continuou com mais umas quantas indignações, finalizando com:

- Tinha fome e comi!!! Aliás sabe que mais, tem uma falta de gosto enorme na decoração, tenho tentado orientá-la mas não me parece que queira seguir os meus conselhos. É uma ingrata. Fique bem!!! Despeço-me!!!!»

E num gesto dramático atirou com o avental ao chão e saiu porta fora. Ainda a ouvi dizer : « - E nem me precisa de pagar o ordenado deste mês!!!».

Eu, que sou Princesa de resposta na ponta da língua, fiquei sem Piu!!!

Tive uns bónus adicionais!!!

Fui alvo de gozação durante algum tempo na Empresa por parte dos colegas. Tive que explicar a razão porque não levei a torta, nesse dia.

Alvo de olhares de desagrado durante uns tempos por parte da vizinhança, «amicíssima» da D. Olívia. E por uma qualquer razão (que eu acho que sei qual é) a senhora do café, durante uns tempos serviu-me o café frio, não cedendo ás minhas reclamações sobre o mesmo!!!

Quanto à D. Olívia ainda hoje quando me vê na rua me cumprimenta com: -Bom dia princesinha (aquele «inha» continua a ser profundamente irritante) e relembra-me a minha fabulástica «torta de cenoura» e por breves momentos o meu instinto primitivo vem ao de cima. Mas faço uns pequenos exercícios de respiração, coloco o meu melhor esgar na cara parecido com um sorriso e oiço-me a responder :

«- Bom dia D. Olívia como está a senhora??!!!»
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 22:24

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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2005

Conversas com sabor a especiarias....

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Há uns tempos atrás escrevi um «post» num momento de nostalgia. Não quis colocar esse «post» no meu blog. Foi colocado num «blog amigo» que já «finou» .
Nesse «post» eu falava de saudades. Uma das minhas saudades eram de conversas com sabor a especiarias que duram e perduram. O tempo (ou a ausência dele) é um «serial killer» das conversas com especiarias. Nunca passamos de conversas superficiais, banais. Como se às vezes as palavras tivessem medo de se revelarem :)
Fiquem com uma carta aberta de um amigo em que o tema é «conversas com especiarias».

@ PrincesaVirtual

Sim, sou eu. Cá venho de novo, à procura do sabor a especiarias, tão típico das conversas que valem a pena.
De novo, e para além do sabor, não sei porque venho.
Garanto-te que não é para despejar mágoas. Essas conversas cheiram a mofo...e enjoam depressa...deixam-nos pegajosos...uma porcaria «autentiquíssima».
O que me apetecia mais e me fazia falta, era assim uma conversa do género desta do João Monge...

“Está na hora de ouvires o teu pai
Puxa para ti essa cadeira
Cada qual é que escolhe aonde vai
Hora-a-hora e durante a vida inteira

Podes ter uma luta que é só tua
Ou então ir e vir com as marés
Se perderes a direcção da Lua
Olha a sombra que tens colada aos pés

Estou cansado. Aceita o testemunho
Não tenho o teu caminho para escrever
Tens de ser tu, com o teu próprio punho
Era isto o que te queria dizer

Sou uma metade do que era
Com mais outro tanto de cidade
Vou-me embora que o coração não espera
À procura da mais velha metade”

Será que precisava de um pai? Acho que não. Apetecia-me era poder ser criança e decidir com a irresponsabilidade que lhes é própria. É que tanto me revejo na incerteza do filho, como no cansaço do pai.

E queres saber porquê? Porque a vida não é fácil! Porque os problemas existem! Porque fujo a encarar de frente um monte deles! Porque cada vez mais os caminhos por onde devo ir se afastam daqueles que quero percorrer! E essencialmente, porque não tenho a certeza de nada disto!

Estás muito calada! Não dizes nada!
Mas entendo-te...pouco há para dizer. Já me disseste antes que toda a gente sente o mesmo. Todos aqueles que estão vivos e não são amorfos. Não disseste? Disseste também outras coisas...que agora não recordo...mas que deixaram rasto de especiarias. O essencial de uma conversa é esse sabor, não é? Tu o disseste também...
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 18:33

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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2005

Dias LIXADOS!!!!

lisbon_taxi.jpg

Há dias lixados!!! Começam lixados, a meio estão lixados e quase…quase que terminam lixados.
Na quinta-feira da semana passada o meu dia começou assim. LIXADO!!!!
Tudo me irritava…impaciência…impaciência!!!
Tinha uma reunião marcada ás 16.00 horas na Parede e o que menos me apetecia era enfrentar o tráfego de Lisboa para a Parede. Ainda por cima a tarde estava cinzenta o que queria dizer que se o meu dia estava lixado, as probabilidades de terminarem muito mais LIXADO aumentavam significativamente, com a perspectiva de ficar presa no tráfego.
Resolvi apanhar um táxi perto do Saldanha. Estava ligeiramente atrasada.
No meio da confusão do trânsito tentava visualizar as luzinhas no topo dos táxis de aviso que o mesmo está ocupado, de forma a estender o braço e mandar parar os que estariam livres.
Se há coisa que me sinto pateta é estender o braço e os táxis passarem num buliço, com o taxista a apontar para a tal luzinha (que não se vê), enquanto encolhe os ombros a dizer «-Pois é!!! Temos pena!!!».
Mas naquela tarde à primeira vista as coisas nem correram mal. À primeira «estendidela» do meu bracito «principesco» um táxi parou.

Entrei e disse: «-Para a Parede sffv». Foi precisamente aqui que percebi que o meu dia continuava lixado!!!
O senhor Taxista virou-se para trás, mostrou-me um dos seus melhores sorrisos dourados (tinha um dente de ouro, que eu achei que estava em extinção) e disse: «-Sinto muito menina, mas vou largar o táxi. Não dá.».
Consegui fazer um esgar parecido com um sorriso amarelo e disse enquanto saia com um ar ofendido do táxi: «Tudo bem, eu apanho outro».

Voltei a estender o braço. Passados uns minutos outro táxi parou. Entrei e repeti a frase: «-Para a Parede sffv». E o senhor Taxista voltou-se para mim e respondeu: «- Parede??? Ahhhh sinto muito minha senhora, mas ainda nem almocei.».
Fechei a cara e resmunguei entre dentes a falta de profissionalismo e que ainda se queixavam que não havia trabalho.
Bom, o Sr.Taxista não gostou muito da minha resmunguice e ainda tive direito a um «piropo».

Voltei a estender o braço enquanto espiava as nuvens cada vez mais cinzentas. Aqui confesso que já estava a ranger os dentes.
Outro táxi parou e pensei, agora nem entro!!! Mostrei a minha melhor faceta de mal-humorada. E secamente, repeti do lado fora do carro a mesma coisa que tinha dito aos outros Taxistas.

E ouvi com bastante alívio o senhor Taxista dizer : «-Entreeeee meninaaaaa….Entreeeee!!!».

Depois de robobinar todo o «filme» deveria ter percebido que aquela viagem prometia. Nem que seja pelo tom alto com que as palavras foram proferidas e o arrastar das mesmas.
Assim que entrei dei a morada. Era de uma empresa. Um cliente novo que nunca tinha visitado. Perguntei-lhe se conhecia. A resposta foi «-Não. Mas não se preocupe que tudo o que é vivo aparece!».

Foi uma viagem hilariante. Eu sem vontade de conversar e o Sr.Taxista com imensa vontade de trocar umas palavrinhas.
Fiquei a saber que ele achava que era sexta-feira, que a cliente anterior que por sinal era muito simpática também achava e claro que eu à força também tive que dizer que sim, que de facto aquela quinta-feira parecia quase uma sexta (foi a única forma de mudarmos de assunto). Depois passámos para o facto de as mulheres fumarem muito, «– Que antigamente é que havia mulheres como deve de ser, que fumar era para os homens!!!». Eu ia abanando a cabeça e sorria, na esperança que as minhas parcas palavras o silenciasse. Até que ele me perguntou «-Então e a menina nunca fumou???». E, prontos lá tive que dizer que sim e ouvir um raspanete e blá blá… Assim, que aquele tema se esgotou comecei a temer o próximo.
O rádio estava a tocar baixinho e lembro-me que estava a dar uma notícia. O novo tema estava escolhido, o acidente da A1. Oitenta viaturas dizia ele, uma data de mortos. No meio contou-me os pormenores todos de um acidente por onde tinha passado há pouco (sou um bocado impressionável e comecei a ficar mal disposta). Começou a mudar o posto do rádio, até que encontrou um em que as notícias estavam a começar.
Confesso que foi o relato noticioso mais fabuloso que assisti!!!
O Sr. Taxista assim que a noticia começou, disse «-Oiça com atenção vai dar!!!». O rádio tocava baixinho e então apercebi-me que algo não estava bem.
Ele rodava, rodava e rodava o botão do som e nada. O rádio continuava a tocar baixinho!!!
Então ele achou que podia resolver a questão de uma forma muito simples, ou seja sempre que o jornalista dizia uma frase, ele voltava-se para trás e repetia-me a palavra que considerava mais importante aos berros, enquanto continuava a rodar o botão do rádio:

-A1
- OITENTA VIATURAS!!!
-NEVOEIRO!
-TRÊS MORTOS!!!
-MUITOS FERIDOS!!!!
-HOSPITAL DE SANTARÉM!!!
…..

De toda a notícia foram as únicas palavras que consegui ouvir. Ia morta de riso. E quando dei por mim a nuvem negra da impaciência tinha-se quase dissipado.
Depois de mais algumas peripécias que achei deliciosas e me divertiram imenso, quer face á simplicidade das palavras utilizadas e ingenuidade (ou genuinidade) chegámos ao meu destino.
O Senhor Taxista queria esperar por mim «-Que eu não lhe tinha parecido muito simpática no início, mas que agora já estava com boa cara!!!». Consegui explicar-lhe que ia demorar e que um colega me daria boleia.
Bom, lá se convenceu e desejou-me umas boas festas e que me esperava voltar a encontrar.
Entrei na reunião com um sorriso na cara, o que é facto é que aquele Sr.Taxista salvou-me o meu dia LIXADO!!!!
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 18:20

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Terça-feira, 15 de Novembro de 2005

Hotel Ruanda...

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Este sábado que passou trouxe para casa um filme para ver. Vi a apresentação do mesmo há uns tempos atrás e na altura despertou-me a atenção.
Lembro-me dos telejornais se encheram de notícias (em 1994), sobre o genocídio de Ruanda. Considerado hoje em dia como uma das maiores políticas de extermínio que se tem conhecimento dos tempos mais recentes.
Sabado à noite enquanto me aquecia à lareira, Ruanda entrou pela minha casa dentro. O filme é intenso, dramático, chocante... mas infelizmente não poderei dizer que mais não é do que uma ficção.
E depois?! Devem estar a pensar: «Onde raio quer esta Princesa chegar?? E todos os outros «genocídios» de que a nossa história está repleta?!». Pois …
Mas este filme tem algumas passagens que nos toca no âmago, pelo menos no meu. Quando tudo aconteceu o mundo não falava em genocídio, mas sim em «actos de genocídio». A palavra «actos de…» fazia a diferença para a comunidade internacional se manter «surda» e «muda» e justificar 1.000.000 de mortos Tutsis e Hutus .
Este filme conta a história de um homem Paul Rusesabagina, que face á sua perseverança e inteligência, conseguiu salvar cerca de um milhar de pessoas recolhendo-as num Hotel de Luxo e exilando-se posteriormente na Bélgica com a sua família.
A forma como o conseguiu é interessante. Ele usou a chamada «vergonha» colectiva.
Quando a comunidade internacional lhes voltou as costas e os deixou para morrerem ele pediu aos hóspedes do hotel, que ali se tinha refugiado (pessoas Tutsis e Hutus importantes) para telefonarem aos contactos influentes que tinham com as entidades estrangeiras e informá-los do que se estava a passar. Que se despedissem deles e os fizessem sentir como se tivessem de mãos dadas e caso eles pretendessem largar as suas mãos, seria importante que percebessem que essa seria a senteça de morte para todos eles. Funcionou!!!
Algures durante o filme é demonstrado a indiferença que todos nós nutrimos por estas «barbáries». Com frases «cliché» tipo: «-Meu deus que desgraça!» - por entre uma garfada de carne e outra de batatas fritas, pedindo de seguida que alguém mude o canal e lhes passe o ketchup,!
Ruanda é um exercício de aritmética básico. É o chamado 1+1 = 1.000.000.
O que faz girar o MUNDO é o dinheiro, interesse, riqueza, cobiça… Ruanda teve azar!!! Nada tinha de interessante para a comunidade internacional e por isso pagou um preço caro.
E nós assistimos na 1ª fila.
Sábado à noite quando Ruanda estava na minha sala, eu tive VERGONHA de ser mais uma pessoa que muda de canal e acima de tudo de fazer parte dessa «multidão» que faz girar o MUNDO quando convém.
Hotel Ruanda não é um filme que devemos ver.

É UM FILME QUE MERECEMOS VER!!!!
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 17:46

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Sábado, 12 de Novembro de 2005

De um só fôlego - O FINAL

collage4.jpg


Chegou ao FIM este pequeno projecto. Eu pessoalmente gostei do resultado final. Para ser sincera diverti-me bastante. Cada Capitulo era um pequeno desafio. Achei que o Francisco talvez não se aguentasse ao barulho. Mas confesso que talvez tenha brilhado mais do que «moi même».Tudo começou com uma lista de títulos que ele escreveu, coube-me a mim escolher um e iniciar. Por isso coube a ele encerrar a Estória. E no que me diz respeito saiu-se muito bem.

@PrincesaVirtual

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Capítulo VI

Trimmmmmmmmmmmmm!
Estava no duche quando a campainha tocou. Que campainha mais irritante! Desde que para ali se mudara que pensava em substitui-la! Parecia o toque de um daqueles velhos despertadores de cozinha, como o que havia em casa de sua avó. Que se danassem. Não iria a abrir! Não esperava ninguém...

Decididamente, a água acompanhava-o nestes últimos e alucinantes dias. Quando não era a chuva, era o duche. E, quando não era este, era a suave transpiração de corpos entrelaçados na excitação do amor.

O seu corpo, como que arrastado pelo pensamento, foi de novo, aos poucos, transportado para os acontecimentos da véspera. Tudo lhe parecia irreal. Apenas o cheiro e o sabor a mar que nele permaneciam, tornavam desnecessário que se beliscasse. Tinha de facto acontecido! Timidamente de inicio, de forma arrebatadora, transpirada, quase animal, para se tornar suave e gratificante no final. Ainda sentia em si o estremecer vibrante do corpo de Ana quando se abraçaram a primeira vez, a pele suave do seu pescoço, aquela boca sequiosa de lábios ávidos de sentir e de serem sentidos. E sempre aquele aroma a mar, a bailar nas covinhas que o seu rosto fazia ao sorrir...ela sorrira sempre...pelo menos parecera-lhe...

Trimmmmmmmmmmmmmmm! Trimmmmmmmmmmmmmmmm! Trimmmmmmm!
De novo a campainha, ao tocar com maior insistência, tentava resgata-lo para a realidade. De novo o seu pensamento lhe tapava os ouvidos. “ – Não esperas ninguém! Não abras!” De novo cedia, e se deixava arrastar para o dia anterior, enquanto a água, sua fiel companheira, continuava a escorrer...

A imagem dos seios firmes de Ana, primeiro a tentarem romper sob o soutien e a fina blusa de algodão que trazia vestida, depois, já libertos, apontando ao alto, negando a maternidade não muito longínqua, acolhendo-o sofregamente. As mãos dela, suaves mas decididas, como seda .... não .... como linho, despertando a sua masculinidade há tanto tempo adormecida. Os murmúrios indizíveis, por ambos proferidos, como carícias dadas e consentidas. A descoberta mútua de todos os recantos, o explorar de todos os encantos! E o abandono, no fim...sem espanto, como se tudo tivesse que ser assim. Sem culpas. E no entanto....

Trimmmmmmmmmmmmmmmm! Trimmmmmmmmmmmmm! Insistentemente a campainha tocava!

Do lado de fora da porta, Ana não sabia o que pensar. Ele estava em casa de certeza. Uma fresta de luz escapava-se por debaixo da porta. De dentro chegava-lhe o ruído de água a correr, entrecortado por música que, certamente, tocava na aparelhagem que no dia anterior, os acompanhara. Sentiu as pernas a fraquejar e estremeceu, quando este pensamento lhe veio à cabeça. Ontem tinha visitado o paraíso e hoje, ali estava de novo, à porta do Éden, disposta a entregar as chaves. E ele que não abria! Ela, por cada segundo que passava, sentia-se vacilar! Talvez ele não abrisse! Faria uma última tentativa, não muito insistente....daria mais um minuto....

Trimmmmm!
- “Merda! Quem seria?” - furioso, Miguel saiu do duche, e procurou a toalha! Não estava à vista. Lembrou-se então que a tinham utilizado os dois, no dia anterior, e que a tinha posto para lavar. Lançou mão à toalha de rosto, pois a campainha não sossegava. Ao colocá-la à cintura, percebeu que teria que optar: uma parte significativa do que pretendia ocultar com ela, ficaria pouco oculta do olhar de quem quer que estivesse do outro lado da porta. E, ainda para mais, os pensamentos em que tinha estado envolvido, não contribuíam para ajudar a esconder nada. “ - Antes pelo contrário! Não passaria despercebido nem envolto em ligaduras!- ” pensou – “Paciência! Que gozem o espectáculo! - ”

- Já lá vou!! - gritou ...e avançou, decidido, em direcção à porta, segurando a diminuta toalha à sua frente!

Olharam-se incrédulos. Ele, porque não esperava vê-la ali, na ombreira da sua porta.
Ela porque, esperando vê-lo....não, decididamente ela não esperara vê-lo a pingar água, segurando uma ridícula toalha à sua frente, tentando esconder o inescondível! Enquanto tentava abafar uma gargalhada, toda a sua determinação caiu por terra... como por terra caiu a toalha!
Ele puxou-a para si, respirou fundo a maresia que já invadia o hall, ela deixou-se puxar, a porta foi fechada com o pé...


Trimmmmmmmmmmmm! Trimmmmmmmmmmm! Trimmmmmmmmmmmm!
Estremunhado acordou, sem saber bem onde se encontrava! Procurou o cheiro a mar! Nem sinal dele...Onde estava Ana? Olhou para o lado! Margarida, sua mulher, dormia ainda, enquanto o sol de Outono de Paris rompia já por entre as portadas das janelas do quarto. Teria mesmo que enfrentar, derrotado à partida, mais um dia da sua rotina... Lá de dentro, como que para o convencer da realidade, chegava a voz da sua Madalena, tagarelando que tinha fome... Desligou, finalmente, o despertador.


Em sua casa, em Lisboa, Ana acordava sobressaltada! “ – Que sonho estranho! – “ pensou! Olhou a cama a seu lado. Vazia, como seria de esperar, desde que terminara o namoro com o Paulo, havia dez dias. Que sonho extraordinário! Julgara-se já incapaz de sonhar com príncipes encantados...

(FIM)

@Francisco (Fdarkeyes)
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 11:49

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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

A politica no Blog da Princesa....

@ Enviaram-me este artigo por mail para eu meditar. E isto porque me considero uma «Apolítica». Está fabuloso!!! Apesar de ser uma «apolítica» assumida, confesso que o que é referido no artigo não é mais do que, aquilo que penso. O que todos nós precisamos antes de lançarmos uma pedra ao telhado alheio é de nos olharmos todos os dias ao espelho. Eu não diria para meditarem depois de lerem o artigo, eu diria antes para se MIRAREM AO ESPELHO.

Bom Fim de Semana para todos :)

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Precisa-se de matéria prima para construir um País


(Eduardo Prado Coelho - in Público)

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve.
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós.
Nós como povo.
Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos ... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito.
Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos.
Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é "muito chato ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame.
Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não.
Não.
Não.
Já basta.
Como "matéria prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA" congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS.
Nascidos aqui, não noutra parte... Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?
Aqui faz falta outra coisa.
E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente abusados!
É muito bom ser português.
Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar.
Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.
Está muito claro...
Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.

E você, o que pensa?.... MEDITE!
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 10:01

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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

De um só fôlego... (penultimo capitulo)

lovers.jpg

Capitulo V

A Maria João tinha acabado de sair. Estava a fechar a porta e ainda a pensar naquela ideia absurda de ela ter sugerido um encontro a quatro com o Miguel. Apeteceu-lhe esganá-la. Estendeu-se em cima da cama e deixou-se levar pelos pensamentos.
Fechou os olhos e voou para um estado de inconsciência onde, por mais estranho que parecesse, ela … era ELA.
As coisas eram muito simples. Tinha o Paulo de um lado, e o Miguel do outro. Visualizou o que de mais básico há em termos de ponderação. Uma balança. E por incrível que parecesse, a balança pesava para o lado do desconhecido.
Ela sorriu. Que pena não ser como a irmã. Agora estaria a levantar-se e a bater à porta do Miguel, com um sorriso na cara e com a maior lata diria: «-Miguel estava a pensar se não queria tomar um cafezinho comigo?».
A irmã tem a mania de repetir aquela frase: «-Arrepende-te de algo que fizeste e nunca de algo que gostarias de ter feito.».
Só agora ela se apercebia do verdadeiro sentido daquela frase.
Fez um esforço para sair daquele estado de «coma» voluntário e do torpor que tinha tomado conta, não só da sua mente, como do seu corpo. Tinha que se levantar, tinha uns assuntos inadiáveis e urgentes para tratar e depois tinha que ir buscar as crianças à escola.
Vestiu o casaco, pegou nas chaves do carro e na mala. Confirmou duas vezes se tinha tudo e abriu a porta de casa.
Quase se estatelou no chão tal foi o susto que apanhou. O Miguel estava plantado na porta, com um sorriso de orelha a orelha. Raios, pensou ela…parece que tudo acontece na ombreira desta porta!!!!
E foi quando o ouviu a perguntar: «- Olá Ana, acabei mesmo agora de fazer um café. Por acaso, não quer tomar um comigo?».
Teve alguns problemas em entender a pergunta. E depois uma voz respondeu: «- Claro Miguel. Olhe, tem piada, ia agora sair para tomar um cafezinho.» .
Nem queria acreditar que aquela voz era dela!!!
O café estava óptimo e falaram durante algum tempo. Depois, ele levantou-se, acendeu a luz de um abajour, regulando a intensidade da mesma para que esta brincasse com as sombras na parede (estava novamente a chover e tinha escurecido apesar de ser apenas 4 horas da tarde) e colocou uma música suave.
Depois sentou-se ao seu lado, retirou-lhe a chávena da mão e fixou-a longamente.
Apesar de se considerar uma pessoa tímida e raramente conseguir suportar um olhar, para estupefacção dela própria, retribuiu e segurou aquele olhar. Uma espécie de hipnose, como se o olhar substituísse os cinco sentidos…Um estranho calor tomou conta dela e sentiu-se a enrubescer.
Ele deve ter notado porque sorriu e levantou a mão até alcançar um caracol que teimava em lhe cair para a cara, e brincou distraidamente com ele.
Foi como se aquele gesto lhe provocasse uma descarga eléctrica. Levantou-se como se fosse impulsionada por uma mola. Ele também se levantou surpreso.
E agora era ele que tinha enrubescido: «- Desculpe Ana. Não sei o que se passa comigo». Ela balbuciou qualquer coisa “que tinha que ir”.
Voltou as costas e saiu apressadamente. Não apanhou o elevador. Estava a demorar muito, e o risco do Miguel aparecer à porta era grande. Por isso iniciou a longa descida dos patamares da escada.
Mas a meio, a frase da irmã começou a martelar-lhe a cabeça. Que raio, pensou, que se lixe a Ana boazinha, a Ana que não arrisca, a Ana sem sabor….que se lixe!!!
Galgou os patamares que tinha descido. E, novamente na ombreira da porta, onde tudo acontecia, estava o Miguel à sua espera.
Lembrava-se dos beijos que a incendiaram, do cheiro dele e especialmente das mãos que a percorreram e a descobriam. Da sofreguidão com que se deleitara com cada toque. Um instinto quase animal apoderou-se deles. O tempo parou, esqueceram-se do mundo. Uma tarde Outonal de puro êxtase. Um momento de vida em que o silêncio se instalou e, «DE UM SÓ FÔLEGO», a entrega foi total.
Não!!!…Não se arrependia do que tinha feito!!! A realidade era outra e ela sabia que, assim que saísse da casa do Miguel, a rotina da sua vida se iria restabelecer.
Estava preparada (por mais estranho que parecesse) para os sentimentos de culpa que a assolariam quando voltasse a encarar o Paulo. E, ainda mais, porque não se conseguia decidir sobre que rumo dar à sua vida e à relação com o Paulo.
Mas não estava preparada para o dia seguinte. Para o dia em que tinha decidido falar com o Miguel, explicar que aquela tarde não poderia significar muito. Que tinha sido uma loucura, um momento. A única loucura que tinha tido coragem de cometer em muitos anos. Que não se arrependia de nada. Mas que antes de se envolver com alguma pessoa, necessitava de resolver a sua vida e especialmente organizar todos os pensamentos que lhe passavam na cabeça. Que o que tinha acontecido a tinha feito sentir-se desejada e apreciada. Que a tinha feito recordar-se da mulher que fora e, acima de tudo, da mulher que era.
Ela estava preparada para tudo. Mas não para o dia seguinte quando, parada na ombreira da porta do apartamento do Miguel, tocou á campainha ….

(continua)

@ PrincesaVirtual
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 10:55

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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2005

De um só fôlego....

banho.jpg

Cap. IV

No dia anterior, chegara a casa tão encharcado como desvairado. Desistira de apanhar o táxi, pois não lhe apetecera enclausurar-se dentro de uma lata amarela e rolante enquanto esta investisse contra as cortinas de trânsito e de água. Preferira ele, sozinho, tratar de romper por entre as cortinas de água.

Tomara um banho bem quente. Ficara horas – pelo menos assim lhe parecera -debaixo do chuveiro, ligeiramente encostado à parede, olhos fechados e braços caídos, na esperança de que a água lhe levasse para longe esta extraordinária e terrível sensação, e o ajudasse a reencaixar no seu mundo.

Estava em Lisboa há pouco mais de três meses. Tinha estado a viver num hotel para as bandas das Avenidas Novas, e mudara-se para ali há apenas 10 dias. Estava a tentar sair de um túnel negro que fora escavado na sua vida. Há cerca de 6 meses, vira o seu mundo desmoronar-se num brutal acidente de automóvel: com ele ao volante, vira morrer a sua mulher e a sua filha, sem nada poder fazer. Para ele, aos 38 anos, a vida perdera todo o sentido. Mudara-se de Paris, onde vivia desde que se casara, para Lisboa, tentando fugir à realidade que fora a sua durante os últimos dez anos. Não estava a ser fácil, mas com o tempo, de vez em quando já conseguia manter um sorriso sincero na cara e, muito mais de vez em quando ainda, soltar uma gargalhada genuína...

O duche quente e demorado apaziguara-lhe o espírito: - “O que senti ontem, sentado dentro daquele automóvel, perto da Ana, senti-o como uma verdadeira traição à Madalena e à minha filha Margarida! Sim...foi isso que me desorientou! Não tinha o direito...pelo menos por agora...talvez mais tarde...mas agora, menos de 6 meses depois...não!” – com esta determinação, comera algo, tomara um comprimido para dormir, chorara o que precisava, estendido no sofá ....e adormecera profundamente, até ao dia seguinte.

Hoje acordara recomposto do arco-íris de emoções do dia anterior. Fora trabalhar, como de costume, não sem que antes não tivesse sentido um aperto no estômago ao sair de casa, no hall das escadas, ao olhar a porta em frente e ao relembrar aquele cheiro a mar. “ Mau!! Poucos pensamentos! Vamos embora! Toca a ir trabalhar, que o ócio é mau conselheiro!”. E fora ... e trabalhara ... e não pensara ... e, dolorosamente, esquecera!!!

Esqueceu, até ao exacto momento em que, ao final do dia, chegou a casa, e se cruzou, no elevador, com uma outra mulher...que ia para o mesmo andar que o seu...e que o de Ana. Aí, o simples relembrar destas três letras, e enquanto trocavam palavras de circunstância, todas as emoções da véspera regressaram de novo, num desordenado turbilhão, que quase o fizeram perder o domínio de si próprio. Através do nevoeiro que lhe tomara conta da cabeça, conseguiu distinguir .... “sou uma amiga da Ana” ... palavras proferidas pela mulher que hoje o acompanhava no elevador.

- Maria João. Muito prazer – apresentara-se ela, naquele seu jeito desempoeirado, um pouco a despropósito, como se soubesse quem ele era.

E sabia de facto....Pareceu-lhe interceptar um olhar dela na direcção da sua mão! Seria para se certificar se usava aliança? Desde o primeiro mês após a morte da mulher que deixara de a usar. Não aguentava o peso daquela lembrança permanente.
- Hmmm...Miguel. O prazer é todo meu – sorrira ele!
- Ahhh...Miguel.... a minha amiga Ana já me falou de si! É o novo vizinho...hmmm? – parecia que algo tinha ficado no ar...como que uma interrogação velada...
- Sim...o novo vizinho...o “bom como o milho”! – ouviu a sua própria voz responder. Nem sabia porque dissera aquilo. Mas algo lhe dizia que ela estava por dentro deste epíteto...
- Ahahahahahahaha! – gargalhou ela, enquanto tocava à campainha – Sim, sim...já sei da “gafe” da Maria! Olhe...desculpe-me o descaramento...mas... hmmmm...é que eu sou assim, sabe? Directa, frontal! Se a minha amiga Ana me ouvisse a dizer isto, matava-me. Mas arrisco...que tal, um dia destes, combinarmos com a Ana e o marido, irmos os quatro jantar fora? Não me interprete mal, por favor...só para que nos possamos conhecer todos melhor. Afinal...é um vizinho, novo, não é?
- Olhe, temos que combinar isso. Seria um prazer!!! – disparei rápido. “Foi o golpe fatal! Só de pensar que poderia ir jantar com a Ana ... “

Nesse instante, Ana abriu a porta. Imediatamente, um aroma a maresia invadiu o hall...pelo menos assim o sentiu Miguel. Miguel corou e, sem jeito, a sua boca desculpou-se do sucedido na véspera. Ana, com menos jeito ainda, e com palavras que pareciam não lhe pertencer, por entre um sorriso, balbuciou algo que lhe soou a um convite para que repetisse a insensatez da véspera. De novo, fugiu para dentro de sua casa, para o seu mundo. Mas desta vez, resolvido a encarar o que lhe estava a suceder.

(continua)

@Francisco (Fdarkeyes)
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 17:07

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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

De um só fôlego...

roupa1.jpg

Cap III

Meu Deus!!!! Se havia mulher mais idiota á face da terra era ela!!!!
Ele deve ter notado, caso contrário ontem não teria, literalmente, fugido do carro. Que coisa mais louca.
Ela, disfarçadamente, olhou-o diversas vezes de soslaio. Um homem interessante, com uma apresentação descontraída. Para ser sincera quase que teve um ataque de riso, quando viu o que lhe pareceu ser um buraco da meia a «espreitar» no sapato.
OK, OK ... tinha que pôr ordem na sua cabeça.
Desde que começara a namorar o Paulo, e se apaixonara loucamente por ele, nunca mais tinha olhado para um outro homem. Quer dizer, pelo menos daquela «forma» que se olha para um homem. Bolas, agora estava a ter uma sensação esquisita, como se aqueles pensamentos fossem uma forma de ser infiel ao Paulo.
Os miúdos e o Paulo, até hoje de manhã, eram o seu mundo. E parecia que era suficiente.
Então porque raio estava a sentir um desconforto??? Porque razão teria ficado tão perturbada com o Miguel???
Ainda há pouco lhe parecera que ouvira uma porta a bater e fora a correr espreitar pelo óculo da porta. Aiiiiiiiiiiiiii ...estava maluca. Só podia.
Já não era uma «teenager» para se comportar assim.
Bom, e ele deve ter reparado nela pelos piores motivos, mesmo excluindo a parte do «bom como o milho», que a Maria tinha papagueado.
Tinha estado ao espelho a mirar-se. Não reconheceu a rapariga que era no passado, quando conheceu o Paulo.
Ela era alta e vestia-se sempre bem. Era incapaz de sair sem se maquilhar. Nunca gostou de dar muito nas vistas, mas era sempre uma presença notada.
Mas agora, olhando-se ao espelho via uma mulher «baça». Fechou a porta do guarda-fatos com força, de tal forma que se assustou quando a mesma bateu.
Ficou a olhar para as coisas que tinha em cima da cama. Três pares de calças novas, uma saia, duas blusas, 1 par de sapatos e umas botas (ambos de saltos altíssimos, o que contrastava com os sapatos práticos e os ténis que agora usualmente usava).
A Maria entrou no quarto e tinha perguntado:« - Mamã quem se vai casar???!!!» . Fartou-se de rir. Até a filha de 4 anos sabia que ela só comprava roupa ou sapatos nos dias de festas, e isto se fosse mesmo obrigada.
Bom, tinha gasto uma «pipa» de massa. De qualquer das formas o Paulo não faria perguntas. Tinha retirado o dinheiro da sua conta, seria capaz de se atrapalhar toda se ele resolvesse fazer perguntas.
Hoje de manhã tinha utilizado a maquilhagem que tinha comprado ontem, uma maquilhagem discreta, mas que a favorecia. O filho foi o único que reparou: «-mamã hoje estás mais bonita!!!».
O Paulo levantou a cabeça do jornal enquanto bebericava o café, e quando voltou a baixar os olhos ouviu-o dizer: «- Por acaso estás, esse tó-tó fica-te bem, favorece-te».
Não comentou. Mas apeteceu mandar-lhe com a cafeteira. Aquele tó-tó que ela tinha, usara-o pelo menos nos últimos 6 meses. Aliás, era algo que ela também tinha pensado em mudar. Se ontem, o apanhar o cabelo daquela forma lhe parecia bem, hoje achava que lhe dava um ar sem-sabor.
Foi interrompida nos seus pensamentos quando ouviu a alguém a tocar á porta.
Quando abriu viu a sua amiga João, a falar muito entusiasticamente com o Miguel. Ainda ouviu o final da conversa em que o Miguel dizia: «-Olhe, temos que combinar isso. Seria um prazer!!!».
Depois voltou-se para ela e disse: «-Olá Ana, ontem não tive a oportunidade de lhe agradecer a boleia.»
Ela respondeu-lhe: «-Ora essa sempre que precisar de alguma coisa disponha» enquanto lhe devolvia o sorriso. Viu-o a afastar-se.
Chegou-se para o lado para a João passar enquanto a ouvia dizer: «- Sim senhora. O «bom como o milho» faz jus ao mesmo. Ai amiga, era um daqueles que me levava ao altar!!!».
Deu uma gargalhada (forçada) enquanto fechava a porta, mas na realidade sentiu um sentimento irracional assolá-la que na altura não reconheceu. E ouviu-se estupidamente a responder: «- João, para te ver casada até me transformo em casamenteira».

(continua)

@PrincesaVirtual
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 11:30

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