Quarta-feira, 7 de Setembro de 2005

Uma viagem comigo...

africa.jpg

Há uns tempos atrás fiz uma viagem, até um novo continente.
África.
Hoje vou-vos levar comigo, vão viajar.
Vão «ver» África com os meus olhos e através das minhas palavras.
Na realidade o meu primeiro contacto com África aconteceu muito cedo, o meu pai é militar e esteve em Angola, decidindo levar a família com ele em várias missões. Mas não tenho qualquer lembrança dessa altura, era muito pequena.
Por isso vou-vos falar de África, mas daquela que conheci há pouco.
S. Tomé e Príncipe.
Lembro-me da primeira golfada de ar que respirei assim que sai do avião, quente, húmido e doce. Um cheiro doce.
Aquilo era África.
Não vos vou falar de tudo, apenas de um dos muitos momentos que talvez não vos consiga explicar, mas que mexeu comigo.
Posso-vos dizer que fiquei encantada, chocada, maravilhada e extasiada…
Na mala levava o livro «Equador» que acabei por ler mais tarde e que me fazia sorrir, porque eu tinha lá estado em cada um daqueles locais.
Julgo, que para me sentir uma personagem do livro, teria sido apenas suficiente que as roupas fossem as da época e que as roças funcionassem em pleno. Quanto ao colonialismo, estava lá numa forma mais «moderna», mas estava. Quanto, á forma de viver daquele «povo», estava lá…
Sorvi cada momento e retive as imagens e sensações mais fortes.
As paisagens, as praias, as roças, as pessoas…o colonialismo, a pobreza, o racismo.
Viajei, pela selva com um mapa na mão e visitei/descobri as roças do presente e do passado.
Algumas, pareciam saídas de um filme. Se fechasse os olhos quase que conseguia ver tudo a funcionar.
Mas na verdade a maioria estava pura e simplesmente em fase de degradação, eu tinha a certeza que se «soprasse» algumas delas se transformariam em pó.
Num desses passeios em que nos perdemos naquela selva de vegetação luxuriante, descobrimos uma roça, uma das que não fazíamos tenção de visitar.
Lembro-me que reparei que um jipe «branco» seguia um pouco mais á frente, pela mesma estrada que nós. A estrada que havia sido construída pelos portugueses á 60 anos ( a maioria delas já tinham sido engolidas pela selva, tornando impossível qualquer acesso a muitas das zonas da ilha a não ser que o fizéssemos por mar), dizer que era esburacada parece-me pouco, seria mais uma estrada «craterada» (acho que inventei mais uma palavra). Por praticamente não nos cruzarmos com qualquer viatura num dia inteiro de passeio, aquele jipe intrigava-me.
Por fim chegámos á roça.
Deixem-me dizer-vos, que as roças apesar de degradadas estão «habitadas».
Em S. Tomé, nunca se está só. Mesmo nos cantos mais recônditos da selva, acabam por surgir pessoas donde menos esperamos. O que confesso me trazia alguns problemas, quando pensava arranjar uma moita jeitosa para o meu «xixizinho». Costumava resmungar quando diziam que eu era muito esquisita, que tinha que ser desenrascada e blá blá… argumentava que há coisas que gosto de fazer sozinha e o «xixizinho» é sem sombra de dúvida uma delas. Mas adiante.
Os S.Tomenses são sem duvida um povo pacífico, acolhedor e simpático.
Como mencionei acima tínhamos chegado á roça.
Tinha perante mim uma clareira enorme, rodeada pela «Casa Grande», a casa onde o administrador da roça vivia no passado,(os donos das roças na maioria dos casos estavam em Portugal) e todas as outras casas em redor (oficinas, hospitais,…), mas degradada para não fugir á regra. Pobre, muito pobre a pobreza é infelizmente outra carecteristica desta ilha(s).
Aquela clareira enorme estava cheia de crianças, que jogavam á bola (uma bola de trapos). Mas o efeito daquelas crianças todas, dos risos, dos gritos, era verdadeiramente impressionante e colocou-me um sorriso na cara.
O jipe branco estava parado e dois homens tinham saído. Nós estávamos a parar o nosso.
Eu estava extasiada com a imagem. Não sei porquê mas quase que sai do jipe em andamento.
Depois, lembrei-me da canção «…parecem bandos de pardais á solta…». Aquelas crianças começaram todas a correr em direcção ao jipe «branco» (pelo menos foi o que me pareceu) e gritavam algo que não percebi.
Depois percebi perfeitamente. Gritavam «professor, professor, professor…».
Mas não pararam, junto ao jipe. Dirigiram-se a um dos edifícios degradados (que depois reparei tinha pintado por cima a palavra a vermelho escola) e desapareceram.
Sem esperar por ninguém, dirigi-me ao jipe e perguntei «algum dos senhores é o professor??».
Um deles disse «-eu sou o professor», estendi-lhe a mão cumprimentei-o e perguntei-lhe «-posso visitar a sua escola??», ele com um sorriso de orelha a orelha disse-me «-claro senhora é ali em cima» e apontou o dedo para o edifício em que tinha visto as crianças desaparecerem.
Dirigi-me ao edifício, confesso que naquela pequena travessia pensei várias vezes (quando tinha que dar uns saltos para não cair num dos buracos do chão de madeira), que talvez aquilo desmoronasse tudo.
Mas consegui, cheguei á ESCOLA.
Quando, entrei deparei-me com uma sala grande. Tinha um quadro muito antigo de giz. Algumas fotos antigas. E aqueles meninos estavam todos sentados, em secretárias antigas de madeira, aquelas que tem o tampo inclinado e que levantando o mesmo tem um local para se guardar os livros (fizeram-me lembrar as secretárias do meu colégio, um colégio já na altura muito antigo e tradicionalista), mas o mais impressionante é que estavam em silêncio.
Entrei e disse «-Bom dia».
Então o mais surpreendente aconteceu.
Aqueles meninos levantaram-se todos (quase me matando de susto) e disseram «- muito bom dia senhora».
Voltaram-se a sentar em silêncio. Só estava eu e os meninos na sala, depois entrou o professor e o ritual repetiu-se os meninos levantaram-se todos e disseram «-bom dia professor».
O professor, distribuiu então uns lápis de carvão e uns cadernos. Umas «ofertas» disse ele. E depois dispensou as crianças que muito ordenadamente saíram da sala.
Falei um pouco com o professor, perguntei-lhe o que ensinava e ele lá me ia dizendo, que ensinava o que vinha naquela sebenta e indicou-me um livro, pelo que vislumbrei quase que vos posso assegurar que parecia uma sebenta da altura do «antigo regime», daqueles livros que para nós são peças de museu.
Não conseguia deixar de pensar nas nossas crianças. As crianças das playstations, dos gameboys,…dos computadores.
E de compará-los àqueles meninos da «bola de trapo», disciplinados, educados, de sorrisos abertos...
Talvez, não tenham viajado…talvez não tenham visto com os meus olhos e sentido com as minhas palavras.
Mas para mim foi um prazer escrever isto e «viajar» novamente e extasiar-me e deslumbrar-me. Sim, hoje podem-me chamar «EGOISTA».
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 18:22

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14 comentários:
De Anónimo a 14 de Setembro de 2005 às 03:33
Parabéns pelo blog!
Só pa dizer que me vieram as lágrimas aos olhos com este teu relato...playstations?...no coment!
Bjokasmarianuvem
(http://212591)
(mailto:marianuvem@sapo.pt)
De africamente a 20 de Fevereiro de 2007 às 22:40
www.africamente.com : um novo espaço de amizades e encontros, com videochat, mapas, blogs, albuns de fotos, videoteca, música e noticias !
De Anónimo a 11 de Setembro de 2005 às 17:51
nunca fui a áfrica, e não consigo imaginar a tristeza em que o povo africano vive (não se é bom, ou uma irresponsabilidade não saber) , mas graças a Deus, cada vez mais me sinto agradecida a Deus, por ter um tecto para me proteger, de ter comida, ter familia!!! e acima de tudo ser feliz... infelizmente há muitas crianças, jovens e adultos africanos que não têm as mesmas qualidades de vida :(
Bjs para a princesinha Pluma,
Venus
encontras-me no meu Templozinho do Amor, em
http://venuslda.blogs.sapo.ptvenus
(http://venuslda.blogs.sapo.pt)
(mailto:felina_romantika@hotmail.com)
De Anónimo a 10 de Setembro de 2005 às 11:33
Uma viagem fantástica a um continente fantástico cheio de magia... BeijinhosNando
(http://http//cantinhodeazul.blogs.sapo.pt)
(mailto:ferochcar@sapo.pt)
De Anónimo a 9 de Setembro de 2005 às 21:36
es egoista pois claro, isso de fazer xixi sozinha denota uma ganancia pura pelo proprio likido, eu por outro lado gosto de partilhar e urinar com os meus amigos todos para dentro do mesmo tubo de ensaio... é giro... ora entao um grande bem hajaInsolente
(http://oprazerdainsolencia.blogs.sapo.pt)
(mailto:aaa@aaa.aaa)
De Anónimo a 9 de Setembro de 2005 às 17:52
Amigaaaaaa! Egoísta porquê? Agradeço antes teres partilhado essa viagem comigo e teres aguçado ainda mais a minha vontade de conhecer o contineñte africano! Que um dia o Mundo lhe faça justiça e toda aquela gente tenha tudo de bom quanto merece!

E mais te digo... mas que excelente contadora de estórias! Ainda para mais visivelmente marcante!Por muito que tenhamos noção, nunca é demais que nos digam e reforcem as difernças que ainda existem. Para que nunca as esqueçamos!

Um beijinho do tamanho do mundo. Malae**************Malae
(http://ilhalorosae.blogs.sapo.pt/)
(mailto:catiandrea@hotmail.com)
De Anónimo a 9 de Setembro de 2005 às 14:04

Olá princesa.Confesso que não li o post todo,mas o curioso é a coíncidência da primeira sensação que ambos sentimos ao colocar os pés em solo africano.O cheiro.Com o tempo a sensação do calor e da humidade desaparecem,mas o cheiro permanece.O agradecimento pelo beijo recatado.hagace
(http://bezaranha.blogs.sapo.pt)
(mailto:heldercorreia@sapo.pt)
De Anónimo a 9 de Setembro de 2005 às 12:34
Princesa, eu sei do que falas... e falas bem.
S.Tomé é tudo isso e um pouco mais do que isso...
É aquele mar envolvendo uma terra que é uma dádiva da natureza...
São aqueles couqueiros a mergulhar na praia...
É aquele mato denso com um cheiro a terra molhada...
São aquelas árvores seculares que encobrem o Sol..
É aquele café e o aquele cacau que agora estão abandonados... porque o petróleo é mais atractivo...
S. Tomé, sendo Africa, pouco tem a ver com a Africa de Angola ou Moçambique.... felizmente.
Sei que um dia lá voltarei... só não sei quando...
NNNN
</a>
(mailto:NH@sapo.pt)
De Anónimo a 9 de Setembro de 2005 às 02:34
Querida amiga.Como já um dia postei,estive vários anos no Gabão,(país costeiro defronte de S.Tomé).Devido à proximidade também estive algumas vezes em S.Tomé.Tudo o que descreves aqui fez-me sentir uma nostalgia enorme.O Gabão é muito mais rico que S.Tomé,mas o que é comum nos 2 países,(não fossem eles descendentes do mesmo clã - os Bantos),é a simplicidade de processos,a simpatia do povo,a facilidade de fazer de pequenas coisas,feitos enormes.E depois há as paisagens,o pôr do sol ...que saudades.Para finalizar,isso de fazer xixi no mato,é uma grande aventura.Como sabes,nesses países equatoriais,há milhares,milhões de cobras,todas elas venenosas.Uma delas a mais perigosa,não tem mais que 10cm,preta.Se fores mordida por ela,em 5 minutos estás morta.Uma vez parei o jipe à beira da estrada para fazer xixi e saltou-me uma capelo à frente.Escusado será dizer que me mijei todo com a pressa com que voltei para o carro...Não tinha graça nenhuma seres mordida no pipi,pois não? - Grande beijinho para ti.
P.S.- Se for eleito,na 1ª recepção que fizer,serás a minha convidada de honra.ès sem dúvida a minha princesa preferida.Mais uma vez,mil beijinhos.Aníbal
(http://mourani.blogs.sapo.pt/)
(mailto:mourani2@sapo.pt)
De Anónimo a 8 de Setembro de 2005 às 10:45
Querido Fdark, felizmente para S. Tomé ainda não se assemelha a angola (isto pelo relatos que tenho ouvido de quem está e esteve em Angola).
Não houve a guerra...aqueles meninos na maioria dos casos ainda são uns «intocáveis».
:) pluma(princesavirtual)
</a>
(mailto:plumacaprichosa@hotmail.com)
De Anónimo a 8 de Setembro de 2005 às 10:33
É! África é isto, e África é tudo o resto. Para além do cheiro, da côr e do sabôr, para além das crianças que parecem incompreensivelmente felizes (porque correm, gritam, jogam à bola) e que levam a cadeira de plástico coloridao às costas para a escola (ou então um cepo de madeira, ou então nada porque se sentam no chão), para além de tudo isto...é a miséria extrema! A degradação humilhante de beber água putrefacta das valetas!

E é tudo o resto que aqui não cabe e que eu não conheço.

Beijos princesa "africana"!fdarkeyes
(http://umacoisadecadavez.blogs.sapopt)
(mailto:fdarkeyes@sapo.pt)

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