Domingo, 11 de Setembro de 2005

O Altinho (Parte I)

altinho.jpg

Altinho ( Parte I)

Vou colocar aqui um pequeno conto de um amigo meu o FOOTPRINTS. Eu pessoalmente acho que ele escreve deliciosamente bem.
Vale a pena perderem uns minutos a lerem e a seguirem o ALTINHO. :)




Vou começar pelo antes.
Na terça-feira reparei que tinha um altinho localizado numa espécie de terra de ninguém: onde o maxilar se aproxima da orelha. Um pequeno alto (curiosa expressão) que não me causava nenhum incómodo. Apenas estranheza. "Uma borbulha interior?" interroguei-me. Não sabia da possibilidade dessa existência.
Com o decorrer do dia, creio que me esqueci do... Alto (chamemos-lhe assim); foi promovido a personagem. Pelo menos não me recordo de me ter lembrado. Lembro-me, isso sim, de quando me fui deitar e enquanto esperava que o sono me levasse ter brincado com ele e mais uma vez me tenha interrogado sobre a sua proveniência, tendo mesmo posto em causa a minha memória: "Será que sempre tive isto e só hoje dei por tal? E será que toda a gente tem, sendo esta coisa uma parte dos nossos corpos? Mas se se tem porquê apenas num dos lados? Serei eu, ou seremos nós, assimétricos?" Dúvidas que me assaltaram mas, felizmente, não me tiraram o sono.
Outras coisas o tiraram. Até que ele veio.
Dia seguinte.
Pois. Fiquei convencido que não era toda a gente que tinha um Alto. Que eu conhecesse, apenas eu. É que... o Alto já não era um Alto altinho. Era um Alto alto. Muito.
Fui ver ao espelho. Não gostei. Agora estava definitiva e completamente assimétrico.
Toquei-lhe e carreguei. Au! O Alto dói. "Mau... Que raio será isto?" Borbulhas dão comichão. Picadas de insecto, idem. Mesmo assim procurei um furinho. O local onde algum ser pouco respeitador das faces alheias pudesse ter injectado qualquer produto “inchador”. Naquele momento veio-me à cabeça o "Alien". Apenas a imaginação a trabalhar mas mesmo assim um arrepio percorreu-me. Depois lembrei-me da aranha. Tenho uma aranha em casa. Até aqui só me tem dado alegrias: muito menos melgas no verão e traças sempre. No entanto... "Se ela foi capaz de me fazer uma coisa destas, terei que voltar a aprender a viver com melgas." pensei.
Só que... nada. Um absoluto nada. A pele estava lisa. "Mas que coisa! Que é que eu vou fazer a isto?"
Naquela altura não fiz nada. Que é que eu podia fazer? A única coisa foi lembrar-me que estava atrasadíssimo, pois tinha de passar pela minha mãe antes de ir para o emprego e as observações do Alto haviam-me feito perder tempo precioso. Como se todo ele não o fosse.
Cheguei lá. Ainda antes do bom dia: "Que é que tu tens na cara?" Gastei mais algum tempo para lhe explicar que não sabia. É estranho que seja tão complicado e demorado dizer "não sei" a alguém. Se não se sabe...
Minha mãe, hipocondríaca nas horas vagas - quase todas -, fez-me prometer que iria a um hospital mostrar o Alto. "Mãe, só dá lá para a noite. Vou ficar no trabalho depois de jantar. Tem de ser.". Mesmo dizendo-lhe que aquilo podia dar lá para as uma ou duas da manhã: "Não interessa. Telefonas-me que eu deito-me tarde. Estou acordada. Se não me telefonares é que não durmo.". Mães...
Durante o dia o Alto ficou lá. Não me pareceu que mexesse. Alguns colegas notaram, outros não. Alguns vêem.
Interrogatórios. Explicações. Comecei a amaldiçoar o Alto.
Jantei.
Agora sim. O maldito Alto começou a dar outros sinais de existência. Primeiro apenas uma pequena incomodação. Depois uma moinha. Mau...
Reconsiderei o pedido da minha mãe. Confesso-te: estava na disposição de não ir a lado nenhum e inventar uma mentirinha caridosa. É que... não-gosto-de-hospitais!
Mas aquilo começava a assustar-me. Sobretudo por não saber o que era.
Meia-noite e tal. Decidi: "Vou lá mesmo".

O durante.
Por vezes esqueço-me das coisas que me podem facilitar a vida nas mais elementares das formas. Desta vez, o esquecimento foi: conheço 3 pessoas que trabalham na recepção da urgência do Teófilo Armando!
Irra! É demais. Só me lembrei disto quando estava a fazer a inscrição para o atendimento no da zona, o Hospital da Sagrada Esperança.
Esqueço-me tão frequentemente que vivo no país das cunhas. Não senhor. Como cidadão temeroso da burocracia governante, a única coisa que me lembrei foi: o hospital da minha zona é o Sagrada Esperança e é lá que tenho de ir pois noutro lado não me atendem. Que burro! Três pessoas conhecidas numa urgência significa que, quase com toda a certeza, pelo menos uma delas estaria de serviço e, pronta a, foi o que me ofereceram, passar-me à frente dos outros infelizes, ser levado ao médico(a) com "carta de recomendação" e nem sequer pagar a taxa de urgência. Taxa de urgência. Não deixa de ser caricato...
Seria maldade minha se fizesse aquilo? Pouco civilizado e desonesto? Pois claro que seria! Mas... vejamos... vou dizer: já não me importo embora continue a importar-me. Compreende-se?
Mas, não senhor. Ali estava eu à espera de ser atendido por um funcionário que discutia ao telefone com não-sei-quem por causa de uma senhora Olga qualquer coisa que tinha tido alta, mas que quem estava do outro lado do telefone dizia que não, ao que o funcionário retorquia que sim porque era o computador mostrava: “A D. Olga já cá não está! Entrou às... não sei quantas e saiu também às não sei quantas”...
Desliguei-me da conversa. Pensei em voltar para trás e ir ao Teófilo Armando. Mas era tão longe. A ideia de ir para casa assaltou-me de repente. E era tão perto...
Eis senão quando chega outra funcionária! "É pá! Há dois!" Pensei com um lavo de jubilo. Ligou o seu computador, puxou a cadeira para trás, ajeitou uns papeis e abriu o postigo: "Quem está a seguir?"
Olhei para os lados e para trás. Apenas uns bombeiros a quem faltava a solenidade do local. Já nem sabia que era eu a seguir, tal era a vontade de tanta coisa.
Comecei a fazer a inscrição. "Porque é que vem cá?" Indiquei-lhe o Alto e ela olhou com uma expressão inexpressiva. Não concluí nada dali. Acabei de fazer a inscrição. Indicou-me a sala de espera.
Tive pavor de ver o que me esperava quando dobrei a esquina que leva à dita sala. E os meus temores foram devidamente confirmados: cheia.
Fiquei parado à porta. Desconsolado. Deprimido. Fiquei com o cérebro vazio - uma defesa que acontece em mim quando algo me faz sentir mal; muito mal. Distante sem estar em lugar nenhum.
Dei meia volta. Vim cá para fora e fumei um cigarro. Depois resignei-me. Entrei e consegui arranjar uma cadeira mais ou menos isolada. Do mal o menos.
Pouco tempo depois, muito pouco tempo mesmo, ouviu-se o trrrr do intercomunicador a ser ligado. "Lá vai um." Pensei. E a voz no altifalante chamou: "João...". "Oh! Há tantos." Pensei eu. "...Pedro Mendonça, balcão de homens!"
"O quê! Eu? Já?!" Uma sensação de total irrealidade invadiu-me enquanto comecei a andar após ter perguntado onde era o balcão de homens.
"Ou será isto um mau sinal?... Será que as pessoas com Altos têm entradas antecipadas?" Não conseguia pensar. Este pensamento não era digno desse nome.
Andei até ao chamado balcão de homens num limbo de névoa cerebral: a activação de todas as minhas energias e todos os anticorpos que possuo para sobreviver naqueles locais.

….. (continua)

Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 20:00

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6 comentários:
De Anónimo a 13 de Setembro de 2005 às 02:14
Todos os cuidados são poucos quando aparece algo fora do comum.Fui recentemente operado de urgência (em Fevereiro),por causa de um quisto linfático,(será assim que se escreve?),de grandes propoções,que cresceu do nada.Por isso...Deixemo-nos de coisas tristes.Um beijinho.Aníbal
(http://mourani.blogs.sapo.pt/)
(mailto:mourani2@sapo.pt)
De Anónimo a 12 de Setembro de 2005 às 18:58
Vá, Pluma, já podes pôr a segunda parte que o pessoal está ansioso ;)

*
footprints
(http://umlugardesilencio.blogspot.com/)
(mailto:ruibar@gmail.com)
De Anónimo a 12 de Setembro de 2005 às 11:46
Ai Princesa, só tu me conseguirias fazer rir hoje. Foi por isso que vim direitinha ao teu blog, mesmo antes de passar pelo meu...lol.. Um beijo ::)))igara
(http://www.bloguiando.blogs.sapo.pt)
(mailto:igara@sapo.pt)
De Anónimo a 12 de Setembro de 2005 às 10:45
Olá Lurdes,

de facto é assustador o que muitas vezes a vida nos pode revezar...de qualquer das formas esta história teve um final feliz :) volta para a leres vale a pena....

Sofia e fazes muito bem em voltar ;)Pluma(princesavirtual)
</a>
(mailto:plumacaprichosa@hotmail.com)
De Anónimo a 12 de Setembro de 2005 às 10:42
não sei se estou a ler ficção ou não, mas gosto da maneira como expressa os seus sentimentos, voltarei para ler a continuação. sofialisboasofialisboa
(http://sofialisboa.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sofialisboa@hotmail.com)
De Anónimo a 12 de Setembro de 2005 às 10:41
Tenho uma amiga que na vida real também encontrou um altinho nessa zona da cara. Não ligou muito, até que numa ida à dentista (que por sinal é sua amiga), se viu obrigada pela mesma a consultar um médico. Soube umas semanas depois ter um cancro linfático. Aos trinta anos, meu Deus!
Uma mulher que nessa altura até estava a passar uma fase muito difícil da sua vida, uma mulher que quase não tinha vontade de viver, agarrou-se não sei bem a quê, reuniu todas as forças que sabia que tinha e aquelas que nunca imaginou ter, e lutou... lutou tanto, chorando, caindo, levantando-se, caindo outra vez, levantando-se novamente...
Hoje, embora vigiada periodicamente, sabemos que venceu a morte.Lurdes
</a>
(mailto:maria_lurdes_martins@yahoo.com.br)

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