Terça-feira, 13 de Setembro de 2005

O Altinho (Parte II)

altinho.jpg

Deixo-vos com a parte II do altinho do FOOTPRINTS. Imperdivel!!! :)

...

Pelo caminho vi uma etiqueta no cimo de uma porta fechada: Sala de Reanimação. "Puxa!" pensei.
Cheguei lá. Não vi nenhum balcão mas a placa era inequívoca: "Balcão de Homens". Realmente... Julgo que o meu lábio se deve ter levantado um pouco quando imaginei um balcão e médicos a servir gente com pernas partidas, cabeças rachadas ou outras mazelas.
Um médico lingrinhas e com bigode de motorista de taxi perguntou-me se eu era quem sou e eu disse que sim. Fez-me sentar e ele ocupou um dos dois lugares que ficavam no lado oposto da secretária. No outro lugar, uma médica, certamente recém formada, com uma mão escrevia qualquer coisa num papel e na outra apoiava a cara que era bem o espelho do desinteresse que o serviço de urgências hospitalar mais necessita.
Após uma série de perguntas feitas pelo taxista, este levantou-se e chegando-se ao pé de mim, disse: "Mostre lá isso".
Não me foi difícil fazer-lhe a vontade. Após uma série de “apalpinhações” e olhares de vários ângulos, exclamou para quem o não quis ouvir: "Hum."
Mais toques e mais uma ou duas perguntas. Pelo meio reprimi um "au". Mas ele, sagacidade da sagacidade, descobriu-me a careca: "Dói-lhe?". "Pois. Um pouco. Quando me carrega... aí!"
"Hum.".
Afastou-se de mim e voltou calçando umas luvas de látex (creio ser este o nome do material) fazendo-as estalar como parece ser praxe. "Abra a boca e vire-se para aqui." O aqui era de onde vinha a luz mais forte da sala. Pôs-me o polegar direito dentro da boca e andou a entreter-se com o interior da minha bochecha.
"Ó (não me recordo do nome), chega aqui. Vê lá se concordas que isto seja um quisto da (nome incompreensível).". O outro espreitou... e espreitou. "Deixa-me lá ver eu.", disse enquanto se fui equipar com umas luvas idênticas e respectivos estalos. Chegou-se ao pé de mim desviando o esquelético para o lado.
Os seus métodos eram um tudo nada diferentes deste: enquanto o outro dizia, este fazia. Não sei se apenas não usou tabefes e murros para me pôr a cabeça no sítio onde achava que tinha mais luz devido ao olhar que lhe fiz ou, se foi por qualquer outro motivo. Cheguei à posição pretendida "apenas" com empurrões. A única frase que se dignou dizer-me foi para abrir a boca. Nessa altura senti-me desiludido com ele: estava à espera que me a abrisse segurando ao mesmo tempo pelo queixo e nariz e puxando. Parvo.
Os seus métodos e a sua gentileza táctil fez com que deixasse de ter inibições e soltasse ais e uis cada vez que a dor apelou a tal.
No fim da sua observação virou-se para o taxista e disse: "É. Manda para a plástica.". Deu um quarto de volta, mandou com as luvas para o lixo e desapareceu de cena.
O taxista que tinha assistido a todo o espectáculo com as mãos atrás das costas, talvez com receio de atrapalhar o desempenho do actor principal, anuiu com a cabeça e voltou à posição inicial na secretária. Esqueceu-se de fazer continência.
A médica recém promovida à classe estava agora mais desperta. Depois vim a perceber porquê.
Duas palavras começaram a fazer-me cócegas incomodativas cá no miolo: uma que não tinha entendido e plástica. Não esperei que o bigodes acabasse de escrever aquilo que possivelmente me mandaria para a dita plástica: "Sr. Doutor. O que é que eu tenho?". O Sr. Doutor interrompeu-se na escrita e explicou-me: "É um quisto da parótida.". Mas como o meu olhar e a minha expressão não tenha demonstrado algo que ele esperasse, continuou enquanto assumia o ar professoral exigido pela situação: "Nós temos glândulas salivares em ambos os lados da cara. São essas glândulas que produzem a saliva que temos na boca. Ela é transportada desde as glândulas por uns pequenos canais. O que lhe terá acontecido foi num desses canais ter entrado alguma impureza, costumamos chamar-lhes areias, que gerou uma inflamação e, com ela, o inchaço. Mas agora vai um pouco à sala de espera enquanto aguardamos pelo cirurgião. Ele não vai demorar.".
E, como com isto tinha esgotado as palavras que me estavam destinadas, assim o fiz.
Pelo caminho fui repetindo: parótida; parótida; parótida. Não me queria esquecer.
Assim que cheguei à sala pedi uma caneta a uma fulana que tinha ar de quem tem caneta, e fiz o apontamento. Agora o Alto já tinha um nome.
Algumas, melhor, muitas dúvidas começaram a assaltar-me: "Que raio me está a acontecer? Que merda será esta? Vou ser operado?" e mais mil e tal perguntas com que decidi bombardear o cirurgião quando o tivesse pela frente.
Não tardou muito até que a mesma voz repetisse o que havia dito: "João... brrrz ...donça, Bal...brrzt de Homens.". Agora havia interferências no intercomunicador mas deu para perceber.
Voltei a percorrer o mesmo caminho. A sala de reanimação tinha agora a porta entreaberta. Como é obvio para mim que me conheço, tinha de espreitar. Não gostei do que vi: alguém, de bata branca dava murros no peito de alguém que estava deitado e não tinha bata branca. "Porra!" pensei.
Balcão de Homens. O taxista disse: "Sente-se aí." e desapareceu por trás de mim.
Voltei a ocupar o mesmo lugar. A recém médica estava agora muito mais direita e composta. Sorriu para mim. Num reflexo retribui-lhe o sorriso mas ela já não me olhava. Toda a sua atenção estava voltada para quem, nas minhas costas, me disse: "Volte-se lá.".
Obedeci. A voz pertencia aquele que mais que provavelmente vai ser eleito o médico modelo do ano e dos próximos que se seguirão. Uma espécie de António Banderas com rabo de cavalo e bata branca. Percebi mediatamente o interesse e mudança de atitude da jovem desde que se tinha falado em cirurgia plástica. Sou um génio.
Começou nova série de observações. Esta acompanhada de perguntas muito mais detalhadas. Pobre, o taxista. Pobre, o outro bruto. Quem eram eles comparados com o Banderas? Uns meros zeros.
Durante a minuciosa observação não pude deixar de constatar que as luvas que me tocavam o exterior e interior da boca pertenciam às mãos de um ser superior. Na pose, na atitude, na presença, até no respirar daquele sujeito estava escrito: eu sou médico; eu quero; eu posso; eu faço; eu curo; eu sou Deus. O António não era modesto.
A determinada altura, acrescentou outro adereço: uma gaze empapada num liquido gelado que me enfiou na boca e que, encostada à bochecha, me fez gelar esta. "Tente não respirar pela boca agora." disse-me na sua voz profissional.
No meio disto tudo vi pelo canto do olho o bruto entrar na sala. Dirigindo-se ao taxista magrinho que assistia, na sua posição preferida - mãos atrás das costas - à performance do clinico Banderas, disse: "Zé, consegui reanimar o gajo!" e guardou os Colts nos coldres.
Pensei: "o gajo é o desgraçado que eu tinha visto deitado e a levar murros no peito. O gajo safou-se. Pelo menos desta o gajo já não patina. Porreiro para o gajo. Viva o gajo."
Fiquei contente. Até com o bruto. Safou a vida do gajo.
Zé, ex-taxista, perdera todo o interesse em mim e agora ouvia extasiado a história do bruto. Mas isto não durou muito pois Mr. Banderas, que, com a ajuda da gaze e respectivo liquido, já quase me tinha conseguido arrancar a bochecha, chamou-o: "Zé! Vês? Vês ali?" disse-lhe, apontando para o interior da minha boca, parte lateral, enquanto que com a outra mão esticava mais um pouco a bochecha. Era fundamental que o Zé visse. Por outro lado, fez que eu aprendesse que uma bochecha é algo muito mais flexível que qualquer humano distraído possa imaginar.
Zé olhou para onde o outro apontava e fazia que sim com a cabeça enquanto ouvia as explicações que lhe eram sussurradas ao ouvido.
Embora não me tenha manifestado, sobretudo porque a minha bochecha estava em poder de alguém que não eu, fiquei revoltado por não me ser dada oportunidade de ouvir a explicação. Afinal o Alto, agora quisto, a bochecha e a boca pertenciam-me. Preparei-me para, no fim, disparar todas as perguntas que me ocorressem em direcção a Deus Banderas.
A sessão chegou finalmente ao seu termo. O médico modelo largou-me e eu, rodando sobre mim próprio acompanhei-o com o olhar. Ele ocupou o lugar à secretária que outrora pertencera ao Zé. Este ficou de pé.
António começou a escrever e ao mesmo tempo a explicar-me o que se passava comigo. As palavras que empregou foram praticamente idênticas às do Zé. Apenas acrescentou que me iria dar um antibiótico e um anti-inflamatório e que eu iria à consulta de cirurgia plástica do Hospital André Miller no dia... pensou... contou pelos dedos... 17 de Abril, onde ele me observaria novamente. "Não." antecipou-se à minha pergunta: "Basta mostrar lá este papel. Não é preciso fazer mais nada. Bem... talvez seja melhor telefonar no dia anterior para ver se realmente há consulta. Pode não haver.". Fiquei muito agradecido pela sua atenção e por me ter lembrado daquele pormenor quase sem relevância: pode não haver.
A doutora novinha seguia todos os seus movimentos e palavras com fingido desinteresse mas a Banderas nada passa despercebido. Tinha terminado de passar-me a receita, virou e revirou os bolsos e voltando-se para ela, perguntou: "Colega. Tem uma vinheta que me empreste?".
Ela respondeu que sim e, enquanto lha entregava, disse-lhe: "Filipa. É o meu nome."
Ele anuiu e após um instante estratégico, perguntou num tom distante e também desinteressado: "Podemos tratar-nos por tu?".
Ela, após um instante estratégico e com um tom distante e igualmente desinteressado, respondeu: "Pode... Podes.".
Ficaram ambos desinteressadamente felizes.
Eu é que não o estava. Sentia-me infeliz e sem interesse nenhum em o estar. Decidi-me:
"Doutor. Não há nenhuma possibilidade de isto ser outra coisa. Por outras palavras: está completamente seguro?"
Ele respirou fundo e aquiesceu em esclarecer-me: "É assim: como me diz que isso apareceu praticamente em dois dias ou menos, não há motivo nenhum que me leve a pensar outra coisa. É com certeza um quisto motivado por "areias". Mas, bom... mesmo com pouquíssimas hipóteses de o ser... enfim... também não podemos excluir ainda por completo a hipótese de ter acontecido uma qualquer degeneração celular.". Estas duas últimas palavras foram proferidas num volume sonoro muito mais baixo que as restantes.
Respirei fundo.
"Devo entender por isso... cancro?"
"S-sim..." disse ele.
Respirei fundo.
Respirei fundo.
"É capaz de me pôr isso por números? Que percentagem atribuiria a cada uma das hipóteses?"
Pensou e falou: "Noventa por cento em como não é. Ou mais.".
Pensei e não falei: "Dez por cento em como é. Ou menos."
Levantou-se, deu-me um aperto de mão e disse-me: "Uma vez que os antibióticos comecem a fazer efeito e se o inchaço desaparecer tornár-se-há claro que não é. Adeus. Não falte à consulta.".
Apeteceu-me dizer-lhe o mesmo. Sobre o não faltar.
Levantei-me. Zé e Filipa olhavam-me. Lancei-lhes um sorriso que a ocasião impunha e saí.
Paguei a taxa de urgência e carimbei a receita.
Saí do hospital com menos de dez por cento de hipóteses de ter cancro.

O depois.
Fui a pé, flutuando em tamancos, até onde tinha deixado o carro.
Entrei e sentei-me.
Telefonar à minha mãe.
Resumo: "Mãe, sou eu. Olha, não te preocupes. É apenas uma inflamação no ouvido. Vou agora a uma farmácia aviar um antibiótico que me passaram. Tchau, tá manhã. Dorme bem."
Depois fiquei sentado.
Tão estranho.
Sempre pensei que se um dia me fizessem o anúncio de um cancro ele certamente estaria localizado nos pulmões. Para mim, um fumador de dois a três maços por dia, o único órgão que teria legitimidade para o reclamar seriam sem dúvida os pulmões.
Pensei em Frank Zappa. Dizia ele: "Eu não fumo. Eu como cigarros.".
Frank Zappa morreu de cancro na próstata.
"Enfim, a próstata sempre é mais digno. Mais masculino também.". Acho que sorri.
Mas... um cancro na saliva?!
Só a ideia per si a soa ridícula!
"Coisa meia tonta, a saliva: tanto pode ser objecto de agressão, violenta até, como de prazer; violento até."
Naquele momento prometi a mim mesmo: "Aconteça o que acontecer vou escrever um ensaio sobre a saliva!".
E que é que me vai acontecer? Isto é, se realmente for cancro será que me vão fazer um buraco na cara e retirar as células maradas? Ou será que vou morrer mesmo? Será... o quê?

- A melhor das hipóteses: isto é uma infecção e os antibióticos vão esgrimir, e ganhar a batalha às células traidoras. Aqui tudo bem. O inchaço passa. Vou lá à consulta, o idiota do médico estica-me novamente a bochecha e venho-me embora. Finito.

- A outra menos má: a infecção passa, mas é preciso intervenção cirúrgica para retirar as areias. Bem... aqui já não são grandes notícias. Mas pronto... algum dia havia de ser: a faca. Terei de saber mais informações sobre quem irá empunhá-la. Ser parecido com o António Banderas não me diz nada.

- Agora esta que já é mazinha: o quisto passa a tumor. Maligno ou não, vão ter de me descascar a cara. Escarafuncham, sacam-me cá para fora o que não presta e ficamos por aqui. Ficamos com o quê? Mais um buraco na cara? Pois... provavelmente encaminharam-me para a cirurgia plástica para evitar, prevenir ou, na pior das hipóteses, impedir que isso aconteça: ficar esburacado. Já me disseram que tenho um certo charme, embora apenas seja giro e não bonito. Mas se realmente não houver matéria que impeça o surgimento de um orifício essencial à prática do golfe na minha face a “gireza” vai às urtigas. Será que o charme resistirá?

- Pondo a pior hipótese: a morte. Sei que vou morrer um dia. Tenho perfeita, plena e total consciência que um dia vou deixar de existir e julgava que estava preparado para abraçar a Senhora quando ela chegasse.

Naquele momento, lá, sentado no banco do carro, perguntei-me: "Estou preparado?".
E respondi-me: "Não".

Fui comprar os antibióticos.
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 10:10

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6 comentários:
De Anónimo a 15 de Setembro de 2005 às 10:46
Oh princesa, este footprints é uma coisa do outro mundo, não...não lhe estou a chamar E.T., mas a verdade é que me fez rir até áslágrimas. Se não fosse o facto de ter sido acometida, de um ataque de soluços, até te diria, que foi dos textos que mais me divertiram nestas lides virtuais. O bigodinho á taxista encheu-me as medidas, mas o António Banderas esse sim...deixou-me o espirito estardalhado. Mais não digo, porque estou naqueles dias, que se começar a falar...não me vou calar. Um beijo Princesa, nas asas!! ::)))igara
(http://www.bloguiando.blogs.sapo.pt)
(mailto:igara@sapo.pt)
De Anónimo a 14 de Setembro de 2005 às 02:23
Ao ler este texto revejo-me em pleno.Fico à espera do final da história.Um beijo do teu amigo "médico".Aníbal
(http://mourani.blogs.sapo.pt/)
(mailto:mourani2@sapo.pt)
De Anónimo a 13 de Setembro de 2005 às 13:19
este homem é igual a muitos que conheço, um hipocondriaco, isso sim, mas gostei da historia, afinal com um final simples...sofialisboasofialisboa
(http://sofialisboa.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sofialisboa@hotmail.com)
De Anónimo a 13 de Setembro de 2005 às 11:45
Acho que vou ter que pedir ao Footprints para escrever a parte III :).

Quem sabe se não consigo aqui colocar mais umas coisas.

:)pluma(princesavirtual)
</a>
(mailto:plumacaprichosa@hotmail.com)
De Anónimo a 13 de Setembro de 2005 às 11:37
Adorei, adorei, adorei! Quem é o autor? e onde é que fica esse hospital? se um dia tiver um altinho quero ser vista pelo Banderas, carago! ;)susana
(http://princesavirtual.blogs-sapo.pt)
(mailto:susana-silva3@sapo.pt)
De Anónimo a 13 de Setembro de 2005 às 11:36
Esperamos por uma parte III?Lurdes
</a>
(mailto:maria_lurdes_martins@yahoo.com.br)

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