Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

De um só fôlego...

chuva1.jpg

«Mistério da Estrada de Sintra

Um certo dia, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão decidiram assustar Lisboa, com a história mirabolante de um assassinato ocorrido na estrada de Sintra.
Tendo como única inspiração a força da imaginação, começaram a escrever. Combinavam, vagamente, na véspera o desenrolar da história e enviavam o original, em forma de carta anónima, para o director do "Diário de Notícias", que a publicava diariamente.
E, de facto, o "mistério" foi lido avidamente e conseguiu preocupar os lisboetas. Houve até leitores que acreditaram nos factos narrados, e mesmo quem tivesse medo de viajar para Sintra, chegando a fazer-se investigações policiais no local.
Tudo se resolveu quando, ao fim de dois meses, os autores se identificaram e explicaram que, afinal, tudo não passava de um belo romance.»

@ontem um amigo relembrou-me este romance e lançou-me um desafio. Vamos fazer uma coisa igual. Aceitei. Por puro divertimento e porque tenho dificuldades em dizer não a desafios. Eu escrevo e envio-lhe um capitulo e ele têm que pegar no que escrevi e escrever um novo capitulo :) Mais do que isto não está definido. Vamos até onde a nossa imaginação nos levar :)

Capitulo I

Estava a apanhar os cacos do chão. Aquela mania que tinha de se perder em pensamentos dava naquilo.
Tinha que se despachar. Tinha um final de dia preenchido, um daqueles dias «filho da mãe e do pai».
Tinha uma reunião na escola dos miúdos, tinha que levar a Maria de 4 anos ao Ballett, depois teria que levar o João de 6 anos á natação.
E mais uma vez teria que os ir buscar. Ainda por cima chovia copiosamente. Tudo a ajudar.
E aqueles pensamentos que não a largavam.
Depois teria ainda que falar com a empregada nova, telefonar á irmã que estava com problemas, ir a casa da mãe que reclamou que há mais de uma semana que não sabia nada dela. Que raio de fim de dia complicado. A questão era como iria conseguir fazer tudo.
Mas porque não deixava ela de pensar naquilo…que nervos.
Para ajudar o Paulo tinha dito que precisava que ela lhe comprasse a gravata que tinha visto no centro. Apeteceu-lhe responder torto. Mas raramente fazia isso. Era uma pessoa dócil. Aliás dócil demais, pelo menos era o que todos diziam.
Sempre fora assim, dócil, serena… Ás vezes tinha a sensação que era alvo de abuso pela maioria das pessoas, por causa daquele feitio.
Aiiii como adoraria ser como a irmã. Segura, frontal, directa e sem papas na língua.
Xiça e continuava a pensar na mesma coisa!!!!
Ainda por cima o que se tinha passado hoje de manhã era demasiado embaraçoso para ela. Mas sem importância.
O que a estava a incomodar era o facto de nem ser propriamente o «embaraço» porque tinha passado, que a fazia pensar e a distraía. Eram sim aqueles olhos doces e meigos, o sorriso divertido e simpático.
Bom tinha mesmo que se despachar.
Tinha que ter cuidado com o que comentava ao pé da Maria. Tinha comentado com a Maria João uma sua amiga em tom de brincadeira que tinha um vizinho novo da frente «bom como o milho». Riram-se e disseram mais umas «brejeirices» de mulheres. Eram amigas de infância, quase irmãs e com ela sentia-se á vontade para fazer aquele tipo de comentários. Mas, a Maria com os seus 4 anos (muito espevitados) estava presente. Ela lembrava-se que brincava com uma boneca, por isso pensou que nem estaria a prestar atenção á conversa.
Hoje de manhã tinha-se encontrado com o vizinho novo, ele educadamente enquanto lhes dava os bons dias abriu a porta do elevador. Agarrou a mãozinha da Maria (o Paulo hoje tinha levado o João ao colégio) e entrou. Há sempre um certo desconforto, quando vamos com alguém no elevador que nos é estranho. Aqueles segundos em que sorrimos, e voltamos a sorrir tornam-se por si só constrangedores. Foi precisamente durante esses segundos constrangedores que a Maria no seu melhor lhe perguntou:

- Mamã, este senhor é o vizinho novo?

Olhou para baixo enquanto mandava um sorriso ao vizinho novo e disse:

- É sim Maria.
- Ahhhhhhh é o senhor «bom como o milho»!!!!

Ia morrendo de vergonha. No meio das gargalhadas do vizinho e de uma rápida reprimenda á Maria, (rápida mesmo, porque o risco de ela comentar qualquer outra coisa da sua conversa com a Maria João era muito grande) o elevador parou.
Quando saíram ele olhou-a e com uns olhos quase tão divertidos, como as gargalhadas que tinha soltado apresentou-se:

- Muito prazer eu sou o Miguel o vizinho novo. Miguel o tal « bom como o milho»…

Apesar de continuar constrangida acabou por se rir e apresentar.
Bolas tinha se perdido novamente naqueles pensamentos. Estava atrasadìssima.
Pegou na mala e nas chaves do carro. Saiu a correr. Voltou a entrar tinha-se esquecido do guarda-chuva e chovia a potes, estava mesmo distraida!!! Quando se voltou deu de caras com o Miguel «bom como o milho» na ombreira da sua porta.

-Olá Ana. Desculpe o incómodo mas seria possível dar-me uma boleia. Não sei que raio se passa com o meu carro mas nem um som faz.

(continua)

@PrincesaVirtual


Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 17:57

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