Segunda-feira, 7 de Novembro de 2005

De um só fôlego....

banho.jpg

Cap. IV

No dia anterior, chegara a casa tão encharcado como desvairado. Desistira de apanhar o táxi, pois não lhe apetecera enclausurar-se dentro de uma lata amarela e rolante enquanto esta investisse contra as cortinas de trânsito e de água. Preferira ele, sozinho, tratar de romper por entre as cortinas de água.

Tomara um banho bem quente. Ficara horas – pelo menos assim lhe parecera -debaixo do chuveiro, ligeiramente encostado à parede, olhos fechados e braços caídos, na esperança de que a água lhe levasse para longe esta extraordinária e terrível sensação, e o ajudasse a reencaixar no seu mundo.

Estava em Lisboa há pouco mais de três meses. Tinha estado a viver num hotel para as bandas das Avenidas Novas, e mudara-se para ali há apenas 10 dias. Estava a tentar sair de um túnel negro que fora escavado na sua vida. Há cerca de 6 meses, vira o seu mundo desmoronar-se num brutal acidente de automóvel: com ele ao volante, vira morrer a sua mulher e a sua filha, sem nada poder fazer. Para ele, aos 38 anos, a vida perdera todo o sentido. Mudara-se de Paris, onde vivia desde que se casara, para Lisboa, tentando fugir à realidade que fora a sua durante os últimos dez anos. Não estava a ser fácil, mas com o tempo, de vez em quando já conseguia manter um sorriso sincero na cara e, muito mais de vez em quando ainda, soltar uma gargalhada genuína...

O duche quente e demorado apaziguara-lhe o espírito: - “O que senti ontem, sentado dentro daquele automóvel, perto da Ana, senti-o como uma verdadeira traição à Madalena e à minha filha Margarida! Sim...foi isso que me desorientou! Não tinha o direito...pelo menos por agora...talvez mais tarde...mas agora, menos de 6 meses depois...não!” – com esta determinação, comera algo, tomara um comprimido para dormir, chorara o que precisava, estendido no sofá ....e adormecera profundamente, até ao dia seguinte.

Hoje acordara recomposto do arco-íris de emoções do dia anterior. Fora trabalhar, como de costume, não sem que antes não tivesse sentido um aperto no estômago ao sair de casa, no hall das escadas, ao olhar a porta em frente e ao relembrar aquele cheiro a mar. “ Mau!! Poucos pensamentos! Vamos embora! Toca a ir trabalhar, que o ócio é mau conselheiro!”. E fora ... e trabalhara ... e não pensara ... e, dolorosamente, esquecera!!!

Esqueceu, até ao exacto momento em que, ao final do dia, chegou a casa, e se cruzou, no elevador, com uma outra mulher...que ia para o mesmo andar que o seu...e que o de Ana. Aí, o simples relembrar destas três letras, e enquanto trocavam palavras de circunstância, todas as emoções da véspera regressaram de novo, num desordenado turbilhão, que quase o fizeram perder o domínio de si próprio. Através do nevoeiro que lhe tomara conta da cabeça, conseguiu distinguir .... “sou uma amiga da Ana” ... palavras proferidas pela mulher que hoje o acompanhava no elevador.

- Maria João. Muito prazer – apresentara-se ela, naquele seu jeito desempoeirado, um pouco a despropósito, como se soubesse quem ele era.

E sabia de facto....Pareceu-lhe interceptar um olhar dela na direcção da sua mão! Seria para se certificar se usava aliança? Desde o primeiro mês após a morte da mulher que deixara de a usar. Não aguentava o peso daquela lembrança permanente.
- Hmmm...Miguel. O prazer é todo meu – sorrira ele!
- Ahhh...Miguel.... a minha amiga Ana já me falou de si! É o novo vizinho...hmmm? – parecia que algo tinha ficado no ar...como que uma interrogação velada...
- Sim...o novo vizinho...o “bom como o milho”! – ouviu a sua própria voz responder. Nem sabia porque dissera aquilo. Mas algo lhe dizia que ela estava por dentro deste epíteto...
- Ahahahahahahaha! – gargalhou ela, enquanto tocava à campainha – Sim, sim...já sei da “gafe” da Maria! Olhe...desculpe-me o descaramento...mas... hmmmm...é que eu sou assim, sabe? Directa, frontal! Se a minha amiga Ana me ouvisse a dizer isto, matava-me. Mas arrisco...que tal, um dia destes, combinarmos com a Ana e o marido, irmos os quatro jantar fora? Não me interprete mal, por favor...só para que nos possamos conhecer todos melhor. Afinal...é um vizinho, novo, não é?
- Olhe, temos que combinar isso. Seria um prazer!!! – disparei rápido. “Foi o golpe fatal! Só de pensar que poderia ir jantar com a Ana ... “

Nesse instante, Ana abriu a porta. Imediatamente, um aroma a maresia invadiu o hall...pelo menos assim o sentiu Miguel. Miguel corou e, sem jeito, a sua boca desculpou-se do sucedido na véspera. Ana, com menos jeito ainda, e com palavras que pareciam não lhe pertencer, por entre um sorriso, balbuciou algo que lhe soou a um convite para que repetisse a insensatez da véspera. De novo, fugiu para dentro de sua casa, para o seu mundo. Mas desta vez, resolvido a encarar o que lhe estava a suceder.

(continua)

@Francisco (Fdarkeyes)
Decreto-Lei decretado por PrincesaVirtual às 17:07

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7 comentários:
De Anónimo a 9 de Novembro de 2005 às 03:45
Antes de tudo desculpa o meu silêncio. Isto tem andado um pouco em baixo, mas vou superar.Li com muita atenção mais este texto maravilhoso.Adorei.Fico á espera da continuação.Beijinhos.Anibal
(http://mourani.blogs.sapo.pt/)
(mailto:mourani2@sapo.pt)
De Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 11:40
Estive uns dias sem passar por aqui e a vossa história está cada vez mais interessante, a continuarem assim ainda a vamos ver na tela de 1 qualquer cinema bem ao estilo Tom Hanks e Meg Ryan em Sintonia de Amor, aguardo as próximas cenas.ana
</a>
(mailto:aana40@sapo.pt)
De Anónimo a 8 de Novembro de 2005 às 09:28
Cá fico à espera da bola (e nunca 'das bolas'), Princesa. De ti nem esperaria outra coisa. Mas vais ter que suar muito...ai vais, vais! Vivos ou mortos ... the show must go on! Beijosfdarkeyes
</a>
(mailto:fdarkeyes@sapo.pt)
De Anónimo a 7 de Novembro de 2005 às 21:45
Darksidemoon : A princesa fica pouco tempo com a bola na mão :) Aliás o novelo já foi desfiado e quem vai ficar com as bolas na mão...ups queria dizer bola é mesmo o meu amigo Francisco ;) bjs

Lurdes: ainda bem que já tenho claque a torcer por mim. Porque confesso que este menino com «uma coisa de cada vez» também não me está a facilitar a vida. bjs (bom gosto para a musica Lurdes)

Francisco: Não te fiques a Rir ... que a princesa ainda chega para ti. Quem sabe se no próximo capitulo não mato o Miguel??? Que te parece??? ahahah acho melhor preparares já um capitulo de zommbies beijo no nariz ;)pluma(princesavirtual)
(http://www.princesavirtual.blogs.sapo.p)
(mailto:plumacaprichosa@hotmail.com)
De Anónimo a 7 de Novembro de 2005 às 20:44
Já me esquecia... Mais uma música *****, princesa!Lurdes
</a>
(mailto:maria_lurdes_martins@yahoo.com.br)
De Anónimo a 7 de Novembro de 2005 às 20:43
Ora quem diria!... O Francisco é o sinhor do "uma coisa de cada vez"... sim sinhor...
Estou a gostar desta trama e tenho a dizer que especialmente este capítulo me prendeu.
Força princesa, aguardo o desenrolar da coisa!Lurdes
</a>
(mailto:maria_lurdes_martins@yahoo.com.br)
De Anónimo a 7 de Novembro de 2005 às 18:48
Cada vez melhor "meninos". Imaginando o que se passará no dia seguinte... Agora, tarefa difícil para a Princesa que ficou com a bola na mão...
Beijinhos para os dois e bons próximos capítulos.
Darksidemoon
(http://illusion.blogs.sapo.pt)
(mailto:sue21_mar@hotmail.com)

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